A medula de um doador é aspirada para transplante e serve em doenças que atacam a fábrica do sangue.
Cientista pioneiro na técnica no Brasil conta como a medicina está reconstruindo a fábrica de sangue do corpo.
Pioneiro no transplante de medula óssea (a fábrica dos componentes do sangue do organismo) na América Latina, quando realizou o primeiro em 1979 na Universidade Federal do Paraná, o cientista Ricardo Pasquini venceu a categoria Medicina do Prêmio Conrado Wessel de Ciência e Cultura, um dos mais importantes do país. Há dois anos, ganhou o prêmio especial do CNPq/MCT e, este ano, teve seu trabalho reconhecido pela Sociedade Americana de Transplante de Medula Óssea. O serviço do Hospital das Clínicas da UFPR, que foi coordenado por Pasquini, fez 25% dos transplantes alogênicos (quando a medula vem de um doador) no Brasil até hoje, cerca de dois mil (sendo 400 entre não parentados). Nesta entrevista, ele fala dos principais obstáculos no tratamento e dos avanços na sua área.
- Aplicações: "Na década de 50, os médicos fizeram as primeiras pesquisas em animais para estudar a possibilidade de transplante de medula. Naquela época não se conhecia quase nada sobre incompatibilidade. Só nos anos 80 o procedimento passou a ser praticado com freqüência e se tornou conhecido. Hoje o número de transplantados cresce de forma geométrica. O transplante de medula tem muitas aplicações em doenças que afetam as células do sangue, como leucemia ou alterações não malignas, como a anemia aplástica, e não pode ser comparado a outros como coração, rins e fígado. No caso de medula, há vários cenários, como tipo de doença, estágio em que ela se encontra e características dos pacientes. Cada um reage de uma forma. Então é difícil falar de índices de cura. Dependendo do caso, o transplante será feito a partir da medula do próprio ou de terceiros (alogênico), ou com células do sangue circulante ou do cordão umbilical."
- Compatibilidade: "Para o transplante de medula, é preciso haver compatibilidade entre o doador e o receptor, caso contrário haverá rejeição. Quando o paciente tem irmãos, a chance é maior. Com a redução do número de filhos por família, isso diminui. Daí a importância de estimular a doação de medul a. No Brasil, a miscigenação dificulta a localização de doadores compatíveis e o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME) registra cerca de 1,4 milhão. Mas não adianta ter um número grande se não houver representatividade de várias regiões. A maioria ainda é proveniente do Sul e do Sudeste. Nos Estados Unidos, por exemplo, são 7 milhões de doadores e nesse cadastro há uma grande representação étnica. Em todo mundo são cerca de 13 milhões a 14 milhões de doadores cadastrados."
- Cordão umbilical: "O armazenamento do sangue do cordão umbilical do bebê ainda não é consenso e há o interesse comercial de empresas que prestam esse serviço. Talvez ele possa ser usado em transplantes autófagos, como, por exemplo, linfomas, que não comprometem a medula. Por enquanto, são poucas as indicações. Um caminho seria deixar o cordão num banco solidário para que todos pudessem usar. Isto implica questões éticas. A maioria das doenças malignas aparece na quarta ou quinta década de vida. Será que, em caso de necessidade, o sangue do cordão umbilical ainda será útil depois de tanto tempo armazenado? Agora não sabemos."
- Idade: "Quanto mais jovem, melhor o resultado no transplante de medula. Isto não é uma regra e os procedimentos são realizados em pessoas de 60 a 75 anos. Nem sempre a idade cronológica corresponde à biológica."
- Leitos: "Nos últimos dez anos, aumentou bastante no país o número de centros de transplantes de medula óssea. Porém, mais da metade só faz o procedimento autólogo, que pode ser considerado menos complexo. São poucas as instituições que fazem transplante entre não aparentados, e a maioria é da rede pública de saúde. Os custos são altos e a rede privada não se interessa por causa da baixa remuneração do Ministério da Saúde."
- Novas estratégias: "Com o melhor conhecimento sobre o uso de células-tronco, podemos pensar em tratar as doenças degenerativas. No caso de medula, no momento, as pesquisas concentram-se em reduzir e amenizar as complicações decorrentes do transplante e criar novas estratégias para que o seu uso possa ser indicado a um número maior de pacientes."