por Tatiane Mota | Revista ABRALE

Com quase 2 milhões de pessoas cadastradas no REDOME, pacientes ainda aguardam por um doador compatível

Entre as 2,5 mil indicações anuais para transplante de medula óssea (TMO), mais de 1,5 mil pacientes não contam com alguém compatível na família e precisam ir em busca de pessoa não aparentada.

A medula óssea é um tecido líquido-gelatinoso presente no interior dos ossos. Nela são produzidos os componentes do sangue: glóbulos vermelhos (responsáveis pelo transporte do oxigênio pelo corpo), glóbulos brancos (combatem as infecções) e as plaquetas (para a  coagulação do sangue).

O TMO consiste, basicamente, na substituição de uma medula óssea doente por outra com células sadias. Há dois principais tipos de transplantes: o autólogo (com a medula do próprio paciente) e o alogênico (quando a medula vem de um doador). O TMO também pode ser feito a partir de células obtidas do sangue de cordão umbilical.

 

 

Segundo o dr. Leandro de Pádua, médico hematologista de TMO do Hospital São Camilo e Hospital Bandeirantes, o procedimento é indicado para pacientes onco-hematológicos (leucemias e linfomas), pacientes com falência medular (hereditária ou adquirida), doenças autoimunes (pioneirismo brasileiro) e alguns tumores sólidos.

Para os que têm indicação médica de transplante alogênico, a procura de um doador, aparentado ou não, é essencial. Caso não se encontre na família alguém 100% compatível, inicia-se a pesquisa nos bancos de medula óssea. Em 2000, com o objetivo de reunir informações sobre as pessoas que voluntariamente decidiram se tornar doadores de medula e assim facilitar a busca pela compatibilidade entre doador e paciente, foi criado o Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea (REDOME), instalado no Instituto Nacional do Câncer (INCA).

Nos últimos anos, o número de doadores tem aumentado expressivamente. Atualmente, o Brasil possui o terceiro maior banco de medula óssea do mundo, com mais de 2 milhões de cadastrados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (5 milhões) e da Alemanha (3 milhões). Entretanto, devido à miscigenação verificada no país, esse número ainda não é suficiente. "A dificuldade em encontrar um doador compatível está relacionada com o polimorfismo da origem de nossa população. Nós somos a combinação de múltiplos descendentes, entre europeus, africanos e índios", explica o dr. Leandro. E compatibilidade é a chave para a realização do TMO, pois exige alguém com as características genéticas praticamente idênticas às do receptor.

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A doação de medula óssea e de sangue não vê cor, nem tipo sanguíneo, apenas uma coisa: Solidariedade!

Para dar início à busca de um doador, o médico responsável deve inscrever as informações pessoais do paciente - como nome, endereço e resultado de exames - no Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea (REREME). A principal informação a ser registrada é o exame de histocompatibilidade. Chamado de HLA, ele identifica as características genéticas de cada indivíduo no sistema do REREME. "Uma simples amostra de sangue é o suficiente para identificar as características genéticas", observa o dr. Leandro.

Segundo o dr. Luiz Fernando Bouzas, diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea do INCA, os dados ficam disponíveis em um sistema que cruza as informações dos doadores com as dos pacientes. Assim que é encontrada a compatibilidade, inicia-se o processo de convocação do doador e o preparo do paciente para o transplante. "Mesmo que não se encontra um doador compatível na primeira busca, os dados cadastrais são consultados diariamente, mais de uma vez ao dia. Os técnicos responsáveis verificam qual a melhor opção para o transplante de cada paciente e consultam o médico responsável para finalizar a escolha", esclarece o dr. Bouzas.

Para ampliar as chances de encontrar um doador compatível não aparentado, em 2009 foi assinado um convênio entre o REDOME e o National Marrow Donor Program (NMDP), banco de medula óssea dos Estados Unidos. A busca nos bancos internacionais é realizada da mesma maneira, ou seja, caso não haja um doador compatível no país, inicia-se a procura no exterior. "Se encontrado, o REDOME é avisado para fazer todos os procedimentos necessários e, assim que o material chega ao Brasil, é encaminhado para o centro de transplante onde o paciente está internado", comenta Bouzas. Com a interligação, os bancos do exterior também procuram doadores no registro brasileiro.

Desde 2007, a ABRALE também mantém uma parceria com o banco internacional da Alemanha, o Deutsche Knochen Mark Spender (DKMS), e mais de 63 pacientes brasileiros já tiveram seus dados enviados para lá. Para realizar o cadastro, basta entrar em contato com o Departamento de Apoio ao Paciente da ABRALE, pelo telefone 0800-773-9973 ou por Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

Pedras no caminho

Apesar do crescimento eminente do número de doadores voluntários de medula óssea, a falta de leitos e profissionais especializados para realizar o transplante ainda preocupa.


"Se todos fizéssemos as coisas de que somos capazes, iríamos literalmente espantar a nós mesmos." -- Thomas Edison

Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), em 2010, mais de cem pacientes conseguiram encontrar um doador compatível (uma chance em 100 mil), mas por falta de condições clínicas adequadas não puderam realizar o procedimento. Entre os principais obstáculos estão a falta de leito nos hospitais. Um exemplo disso foi o fechamento da ala de TMO do Hospital São Paulo, no ano passado, e a discussão sobre o fechamento do CTMO, do HEMOPE, devido a diversos problemas de estrutura. Todos os pacientes passaram a ser encaminhados para outros centros, gerando super-lotação e meses de espera.

Para amenizar o problema, o Ministério da Saúde prometeu liberar neste ano cerca de 15 milhões de reais para a implantação de mais 80 leitos em todo o Brasil. Mas criar um novo leito de transplante não se resume a construir um apartamento com cama. Atualmente, o Brasil tem  350 leitos e 61 centros para transplante de medula. Destes, 20 são autorizados a realizar transplantes não aparentados.

De acordo com o dr. Nelson Hamerschlak, onco-hematologista do Hospital Albert Einstein e membro do Comitê Científico da ABRALE, antigamente o principal obstáculo era conseguir doador. Atualmente, com o REDOME, rede mundial, bancos de cordão umbilical e tecnologia para aparentados haploidênticos ("meio" compatíveis), encontrar um doador deixou de ser o principal empecilho. "A maior dificuldade, hoje, é a disponibilidade de leitos, consequência direta do financiamento do sistema. Basta dizer que, para um transplante não aparentado no maior centro de transplantes dos EUA, o MD Anderson Cancer Center, exige-se um depósito de 600 mil dólares. No Brasil, o SUS paga menos de 10% disso. Tais valores precisam e devem ser revistos no novo governo - pelo menos essa é a esperança", diz.

Para a presidente da ABRALE, Merula Steagall, "o gestor do hospital precisa manifestar interesse em criar leitos para transplante, o que não vai acontecer se o SUS não reavaliar a remuneração paga pelo procedimento".

Em abril do ano passado, o Ministério da Educação autorizou a residência médica em transplante de medulá óssea, já que a falta de profissionais especializados em TMO também é um agravante e o investimento na área é essencial.

Segundo o dr. Frederico Dulley, presidente da Sociedade Brasileira de Transplantes de Medula Óssea, todo o procedimento do transplantes não aparentados é muito demorado, o que acaba por prejudicar o paciente na fila de espera. "Há muitas complicações para se realizar um TMO não aparentado. O paciente acaba por aguardar meses, mesmo após ter encontrado um doador compatível, até que todos os exames necessários sejam feitos. Outro grande problema é a desatualização cadastral desses possíveis doadores", salientou.

E quando o assunto é dificuldade para o TMO, a desatualização cadastral do REDOME não pode deixar de ser citada. São muitos os dados incorretos, o que prejudica não somente a busca por um doador, como também a própria realização do transplante, caso seja selecionado um indivíduo com informações erradas.

O REDOME realiza ações para contornar o problema, como divulgação por meio de assessoria de imprensa o envio de cartões do doador e parcerias com os hemocentros, pois, como frisa o dr. Luiz Fernando Bouzas, "a conscientização popular sobre a importância de manter os dados sempre atualizados é fundamental".

A atualização pode ser feita pelo Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ou por telefone (21) 3207-5238. Em abril, a instituição implantou um novo sistema de cadastramento, o REDOME-Net. Com tecnologia para a web, ele será utilizado pelos hemocentros e laboratórios de histocompatibilidade, e cada instituição tem acesso à sua parte do cadastro. Esse sistema evita duplicidade, e a atualização será responsabilidade dos profissionais que cadastrarem os doadores voluntários.

- Para saber como se tornar doador de medula óssea, clique aqui.
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- Assine a petição pública contra o fechamento do Centro de Transplantes do HEMOPE, o único público do estado de Pernambuco, clicando aqui.
- Veja história de sucesso sob a ótica de um doador de medula óssea, clique aqui.
- Veja a história de sucesso sob a ótica da mãe de um paciente de transplante de medula óssea, clique aqui.