por Marco S/A
É terrível quando pensam que você só está ajudando aos outros só porque já precisou. Essa visão superficial e esses pré-julgamentos são um tanto deprimentes.
Eu, por exemplo, nunca tive problemas financeiros a ponto de "passar fome", ou precisei de transfusão por algum problema grave de saúde (apesar de já ter quase morrido e sofrido uma fratura exposta hehe)
Lembro que, lá pelos 10 anos, participei de um concurso de redação em um jornal de grande circulação do Rio. O prêmio era uma quantidade enorme de cestas básicas... doei tudo. E, olha, minha mãe - solteira e funcionária pública - não era ou é rica e me sustentava na época. Podia ter colocado uma comidinha na mesa...

Não me ressinto ao ter doado livros que eu amava, além de toda a minha coleção da Turma da Mônica (é, eu adoro o Maurício de Sousa). Só não doo "O segredo", porque ninguém merece ler aquele livro chato!
Junto com o cantor Leoni, eu e uns amigos fazemos diversas ações sociais no Complexo do Alemão, para o Núcleo de Mulheres Brasileiras em Ação, que chamamos carinhosamente de Ação Outro Futuro, por conta de uma música homônima do cantor.
Ontem, 10/12, aos 25 anos, fiz minha primeira Doação de Sangue. Sim, eu tive oportunidades antes, mas ora estava resfriado, ora estava até com medo de agulha, por conta dos hemogramas que se faz ocasionalmente.
Até que o destino colocou a Laila Sena na minha vida e, com isso, entrei para a Veia Social. Às 7:50 da manhã estava no HEMORIO para o grande dia, era a Campanha Nacional de Doação de Sangue - Rio de Janeiro, que eu colaborei durante um tempão, onde juntei uma galera, e tirei um monte de dúvidas para desconhecidos, mesmo sem nunca ter doado sangue.
Na hora da triagem, fui "rejeitado" por um problema que tive na infância. Há um questionário para saber se sou apto a me tornar doador. Bem, quando criança, tive uma espécie de epilepsia conhecida como "crise de ausência" ou ainda "pequeno mal", dita assim quando comparada à epilepsia que conhecemos normalmente. A responsabilidade em não ter mentido no questionário fez com que eu quase não me tornasse um doador. Mas, mesmo depois da resposta negativa, eu não me dei por satisfeito. Procurei a assistente social, que conversou com a médica de plantão e eu expliquei detalhe por detalhe da doença, que não oferecia mais nenhum risco no ato de doação, já que ela afeta exclusivamente crianças dos 6 aos 12 anos e minha última crise foi aos 11. Voltei à sala de triagem e abri aquele sorriso quando obtive a autorização para doar.
Depois de uns 2 minutos de espera, lá estava eu deitado para compartilhar vida. Escolhi o braço esquerdo, pois tenho ali uma veia "saltada", que, por intuição, seria super fácil no processo (e não estava errado). Olhei para a agulha e... que surpresa! Bem menor do que eu imaginava. Laila, que estava do meu lado, disse para eu respirar fundo quando fosse perfurar o braço. Mas, quando fui respirar fundo, a agulha já estava lá dentro! Parece até aquelas mordidinhas leves de namorada! A assistente social Elisa, que me ajudou antes, também ficou lá e a enfermeira era de uma simpatia e cuidado indescritíveis. Em menos de 10 minutos, doei toda a quantidade que podia, em meio a risadas e orientações responsáveis das profissionais no local.
Mais uma vez, ajudei pessoas, apenas por ajudar, como sempre fiz. Ao longo do dia, naquele emblemático lugar da Frei Caneca, conheci pessoas fantásticas, que estavam lá apenas pela vontade de ajudar. Absolutamente ninguém de ego inflado ou com segundas intenções de auto-promoção. Um doador, sozinho, levou uns 15kg de donativos. Sabe o que ele pediu em troca? Nosso e-mail para trocar experiências e se manter atualizado das campanhas, além de também querer ser voluntário.
Ao longo dessas caminhadas solidárias, já me decepcionei muito com as pessoas que se auto-promovem, dizem que vão ajudar e desaparecem no ato. Mas, ainda bem, percebi que é bem mais interessante juntar as pessoas de bom coração do que reclamar de má vontade ou ignorância. O bem já é o bem por si só, merece e precisa ser compartilhado
Agora, eu sou um doador de sangue e ainda de medula óssea. Não me importo em saber para quem vai. Vidas são vidas. Que graça teria viver sozinho no mundo, sem aprender com as diferenças ou se reconhecer em desconhecidos? Se você nunca doou sangue, ou já faz tempo que doou, sinta-se livre e feliz para visitar o hemocentro mais próximo. Se, por algum motivo, você não pode doar, há muitas outras formas de fazer a diferença. Vamos compartilhar vida?
Marco Antonio Araujo - Coordenador Administrativo da Veia Social.