É uma Doação de Sangue espontânea!

Depois que me mudei para o Brooklin, em SP, vou doar trimestralmente no Hemocentro São Lucas. Nem sempre é a mesma recepcionista quando chego lá. Acho q eles não estão acostumados com doadores espontâneos e atendem mais as solicitações direcionadas para alguma premência em particular, nas quais são enviados pedidos específicos pros familiares...

Aí, sempre vem a pergunta fatídica: - "É para algum paciente?"

- Não senhorita (cheio de orgulho)... É uma doação espontânea! : )

Certa vez, fiquei matutando sobre isso... toda vez a mesma coisa... e conclui que essa resposta estava errada! Aí pensei: Me aguardem! Eu vou pegar vocês! ; )

A partir daquele insight, quando chego lá e vem a tal pergunta:

- "É para algum paciente?"

eu respondo algo como...

- "Espero que sim! Eu não vim aqui para doar 450ml do meu sangue bom e isso ficar perdido em alguma geladeira! Pretendo que, no mínimo, isso corra nas veias de 4 pacientes! Certo? É pra 4 pacientes, sim? Só não sei os nomes!" rsrsr

Aí elas morrem de dar risada e se dão conta do ridículo da pergunta... ou pelo menos, da maneira como é enunciada!

Às vezes, a mesma recepcionista cai na pegadinha mais de uma vez... :P

Agora, quando chego, algumas ficam espertas... só que para escapar do condicionamento a fazer sempre a mesma pergunta, e na falta de um outro texto pronto para enunciar a coisa da forma correta, muitas vezes ficam gaguejando, tentando encontrar as palavras para não serem vítimas da pegadinha mais uma vez! hehe! Aí, a própria tentativa se torna motivo de chacota, e de uma forma ou outra, sempre acaba sendo algo divertido quando chego por lá.


Claro que depois da recepção, ninguém mais se salva! A entrevistadora, me pergunta: - Quantas parceiras entre a última doação e esta?" Aí, seriamente, respondo: - Umas quinhentas... não contei direito! Quando ela fica me olhando com aquela expressão de espanto, olhos arregalados e ao mesmo tempo um sorriso maroto por estar na frente do maior garanhão do pedaço, aí complemento: Brincadeirinha! ; )

Pro auxiliar, que vai checar se estou com anemia, toda vez peço o impossível: - Dá pra ver às quantas anda meu "Fator Anti-nuclear"?... Aí me explica, todo acadêmico, mas com um sorriso no rosto, que se trata de um teste simples, que só vai verificar quantidades de glóbulos vermelhos, pra ver se estou apto a doar, blá blá blá... ele sabe que eu sei! Mas essa foi a maneira encontrada para descontrair com todos esses heróicos coadjuvantes do processo de doação, interagir humanamente com eles e assim torná-lo algo alegre e prazeroso!

Todos eles ficam felizes por eu estar aí, doando... e eu também fico feliz... então, tudo se completa!

A doação de sangue em si, por vezes pode parecer um processo bastante frio... impessoal... Ambiente esterilizado, cheiro de hospital, desinfecção, tubos de ensaio, etiquetas, agulhas, picadas, saquinhos, geladeiras... e por cima, o desconhecimento do receptor, ou receptores, o que configura o objeto central da doação dentro de um universo distante e desconhecido de absoluto anonimato! O receptor não está sentado aí ao lado! Não dá pra ver a cara dele, ou receber um tapinha nas costas e um "obrigado" após a transfusão! Nosso sangue é ensacado, etiquetado e vai pra uma geladeira! Quer algo mais frio e impessoal do que isso?

Não obstante, quando o insight de que aquele fluído vital que percorre nossas veias, vai também percorrer as artérias de alguém que o necessita, transportando a energia primordial da vida, contida no oxigênio do qual os glóbulos são o veículo, aí a Doação se torna algo mágico! É Vida saindo de uma Vida e levando Vida para outra Vida! Essa consciência faz toda a diferença e o processo de doar deixa de ser impessoal e se torna algo quente, humano, muito pessoal!

Talvez seja esta a maior barreira da Doação espontânea: o receptor é anônimo. Quando se trata de doar para um irmão, um parente, um conhecido, os candidatos estão lá, é possível desenhar o rosto do receptor no holograma interno e saber para onde se destina nosso sangue. É uma necessidade palpável, real. O receptor tem nome e sobrenome e pertence a um universo conhecido, faz parte de um vínculo concreto e somos cientes da sua necessidade.

Por sua vez, o Doador Consciente ultrapassou esta barreira. A impessoalidade dos saquinhos e as geladeiras e o anonimato do receptor não são mais motivo de objeção. A consciência de que somos Todos Um, estamos Todos no mesmo barco e precisamos desse fluído vital prevalece sobre tudo o mais e ele estende seu braço toda vez que for possível, na compreensão das leis que regem a regeneração do fluído doado. Nesta perspectiva, o Sangue é sempre para um irmão. Não importa o nome, nacionalidade, raça, credo ou cor. É uma transfusão de veia pra veia... atemporal... não sincronizada... porém para um irmão, a bordo do mesmo barco, que por algum motivo precisa desta doação.

Não tem este líquido precioso nas prateleiras do super-mercado. Não pode ser sintetizado. Não pode ser obtido misturando-se componentes 1 e 2. De fato, em milhares e milhares de anos luz, pelo menos nas proximidades de nossa galáxia, onde já foi exauridamente analisado, não existe nada igual! Numa extensão de espaço muito gigantesca, a Terra é o único lugar onde é possível encontrar este fluído, chamado Sangue!

Antigamente, quando eu era pequeno, os bancos de Sangue costumavam utilizar para o armazenamento umas garrafas de vidro transparente, parecidas com aquelas que o entregador de leite deixava na porta, um pouco menores, fechadas com um lacre de alumínio que prendia uma tampa hermética de borracha... pelo menos era assim em Buenos Aires... Como meu pai era um médico hemoterapeuta (ou hematologista -nunca soube a diferença aqui-) e ele era responsável pelo Banco de Sangue de um renomado hospital de Buenos Aires, muitas vezes ele voltava para casa com algumas dessas "garrafas" que seriam utilizadas numa cirurgia crítica logo pela manhã, e as deixava dentro de nossa geladeira... sim! junto com os alimentos, ovos, alface e tudo o mais que as pessoas guardam dentro de uma geladeira!

Era uma cena atípica e surreal, abrir a geladeira para pegar um suco e deparar-se com aqueles vidros, hospitalares, por vezes 5 ou 6, cheios de Sangue, de uma cor vermelha, única, vibrante, chamando a atenção no meio dos pepinos e tomates, numa prateleira do refrigerador que naquela época ficava na altura dos meus olhos! Não tinha isso nas geladeiras das casas dos meus amigos! Era sempre surpreendente, fascinante e meio assustador ficar olhando para aquilo! : ) O máximo de sangue que havíamos visto antes disso era de um machucado aterrador no joelho, ou de um dodói espantoso, de 1 cm, no cotovelo, depois de cair da bicileta!

Com o tempo, meus irmãos e eu nos acostumamos com a cena... - É para um paciente que fará uma cirurgia que irá durar mais de 5 horas, explicava meu pai... e como perderá muito Sangue no procedimento precisa ir repondo essa perda para ele não morrer... E em nossas pequenas cabeças, além de montar-se a cena radical com os trechos de cirurgias que podíamos ter capturado na TV, algo sempre dizia: - Nossa! Isso é importante! Esses vidros vão fazer com que alguém não morra! Isso aí que está em nossa geladeira, de alguma forma é precioso!!! E assim passamos a encarar os vidros vermelhos vibrantes com o maior respeito e naturalidade, fascinados e estupefatos por estar diante de algo tão mágico e vital que pudesse fazer a diferença entre a vida e a morte, que mal compreendíamos...

Por isso, quando você for Doar Sangue, da próxima vez, lembre-se de tudo isto... e caso a recepcionista pergunte:

- É para algum paciente?

Encha-se de orgulho, sorria, e responda com um tom bem firme, proclamando essa verdade aos 4 cantos do universo:

- Sim! É para 4 pacientes! Só não sei os nomes! ; )


A+Braços para Todos - @>--->---- lito etchepare