O pessimismo em relação ao futuro não foi sem motivos. "Durante o tratamento teve enfermeira que me deu 3% de chance de vida". Hoje ela está curada e brinca com o pai quando lembra da doença. "Digo ao meu pai que dei um tapinha nas costas da Dona Morte e a chamei pra tomar um chope".

Durante o tratamento do câncer, Laila foi submetida a inúmeras transfusões de sangue. Recebeu 26 bolsas no total. Oito anos depois a dramática experiência resultou num projeto que promete transformar vidas por todo o Brasil, o Veia Social, que visa mobilizar doadores de sangue através da internet.

 

O projeto surgiu há 2 meses durante um bate papo informal sobre Doação de Sangue entre Laila e o também carioca Lula Ribeiro, que ela conheceu na rede. Os dois tinham a mesma dúvida: como receber e enviar informações sobre sangue na internet? Foi pensando nisso que os novos amigos decidiram centralizar os dois lados: os pedidos de sangue e doadores em potencial. "Tivemos uma sintonia maravilhosa. Em poucos dias escrevemos o projeto inteiro. Acredito que tudo isso aconteceu assim porque fizemos esse projeto de coração", conta Lula Ribeiro.

 

A conversa entre eles prosseguiu. Lula fez o site e desde então foi plantada a semente num mundo virtual para brotar no coração de pessoas reais. "Acredito que tão importante quanto a doação de sangue é começarmos a plantar uma semente de conscientização nas pessoas. Isso já está valendo. O sucesso das ações e mobilizações vem aos poucos, se a semente já estiver bem plantada", diz Laila.

 

O interesse de Lula pela doação de sangue também surgiu de forma curiosa. Ele doou pela primeira vez em 2009, aos 34 anos, para ajudar a mãe de uma amiga. Tanto tempo longe de um hemonúcleo não provocou apenas arrependimento em Lula, mas também uma vontade de fazer algo mais. "Me senti incomodado por ter ficado 16 anos sem doar sangue. Resolvi montar esse projeto com a Laila para ressarcir as pessoas para quem deixei de doar", conta.

 

E essa forma diferente de mobilizar e informar os internautas sobre doação de sangue utilizando as redes sociais na internet atraiu vários membros que se identificaram com a causa e aderiram a ela.

 

O Veia Social conta atualmente com mais de 400 seguidores no Twitter. Uma das primeiras a "vestir a camisa" do projeto foi a pernambucana Joseanne Carla, que, mesmo não podendo ser doadora devido a seu peso, realizou em Recife (PE) uma mobilização para atrair doadores, o que fez com que atraísse até mídias renomadas para divulgar o evento. "Minha forma de contribuir é incentivando a doação de sangue, esclarecendo e fazendo mobilizações. Juntei um grupo de amigos para divulgarmos no Twitter, Orkut, Facebook (redes sociais) e e-mails a nossa mobilização, que aconteceu no mês passado", explica.

 

O resultado não foi o esperado, mas de acordo com Joseanne foi satisfatório e gratificaste. "Com o apoio da TV Globo foi possível mostrar a importância da doação e a seriedade da nossa ação", conta.

 

A mobilização funciona da seguinte forma: o Veia Social procura o hemonúcleo ou alguma empresa interessada em realizar a doação em massa. Firmada a parceria, a mobilização é feita e o evento acontece.

 

O número de doadores nas mobilizações ainda é pequeno. Até o fechamento desta reportagem, haviam sido feitas duas mobilizações, a de Recife, citada acima, e em São Paulo. Mas não pense que isso preocupa os idealizadores do projeto. "Senti uma certa tristeza por tão poucas pessoas terem ido às mobilizações, mas, como diz a Laila, vamos em passos de formiguinha, mas vamos", entusiasma-se Lula.

 

No projeto, tem membro que ainda não organizou mobilizações, mas ajuda como pode. A estudante de jornalismo Ariane Fonseca mora em Lavrinhas (SP) e, enquanto amadurece a idéia de organizar uma doação conjunta no vale do Paraíba, vai contribuindo para propagar o Veia Social. "Coloquei-me à disposição para ajudar no que fosse necessário, pois sempre tive vontade de ser voluntária num projeto assim. Cheguei a escrever um relesse para divulgar as mobilizações organizadas por eles. E também sempre divulgo no meu twitter as ações", diz.

 

Laila acredita que a cura da doença pela qual passou não foi à toa. "Talvez eu tenha sobrevivido apenas pra mostrar que tudo é possível, inclusive um mundo perfeito, onde todos se ajudam pelo bem do próximo, e não pelo próprio bem. Talvez eu tenha sobrevivido pra ensinar algo ou simplesmente para chegar até aqui, conhecer o Lula Ribeiro e termos a louca idéia de formar uma rede social para doadores de sangue. Muito prazer, somos a Veia Social". "